O Que Está em Jogo no STF?

O Supremo Tribunal Federal (STF) se prepara para dois julgamentos que podem redesenhar o mercado de trabalho brasileiro e, por consequência, o sistema previdenciário.

Tema Número O que decide Status
Pejotização Tema 1.389 Se é constitucional exigir que trabalhadores constituam pessoa jurídica (PJ) para prestar serviços, afastando o vínculo empregatício Suspenso desde abril/2025 (relator: Gilmar Mendes)
Uberização Tema 1.291 Se existe vínculo de emprego entre motoristas/entregadores e plataformas digitais (Uber, iFood, 99) Aguardando julgamento

Segundo levantamento do Anuário da Justiça Brasil 2026, o TST recebeu 380 mil novos casos apenas em 2025, e reclamações trabalhistas no STF saltaram de 10% para 40% do total entre 2016 e 2025 — um reflexo direto da tensão entre as cortes sobre esses temas.

Por que isso importa para a Previdência?

Quando um trabalhador é contratado como PJ em vez de CLT, ele deixa de contribuir como empregado para o INSS. Isso significa: (1) perde direitos como auxílio-doença acidentário, aposentadoria especial e seguro-desemprego; (2) contribui por conta própria, muitas vezes abaixo do valor adequado; (3) compromete a arrecadação da seguridade social como um todo.

Pejotização: Liberdade Fiscal ou Armadilha Previdenciária?

A pejotização é a prática de contratar um trabalhador como pessoa jurídica (PJ) para exercer funções que, pela natureza, seriam de vínculo empregatício (CLT). O STF julga se isso é constitucional — e a decisão pode validar ou restringir a prática em todo o país.

O Cenário Atual

Desde 2018, quando o STF decidiu pela constitucionalidade da terceirização inclusive para atividade-fim (Tema 725), o número de trabalhadores PJ cresceu exponencialmente. Muitos profissionais — especialmente de TI, consultorias, vendas e serviços — foram "convidados" a abrir CNPJ para continuar prestando serviço às mesmas empresas.

O problema previdenciário é triplo:

  • Contribuição insuficiente: O PJ muitas vezes recolhe apenas o valor mínimo como contribuinte individual (11% sobre o salário mínimo), resultando em benefícios futuros muito baixos.
  • Sonegação previdenciária: Estima-se que grande parte dos PJs não contribui regularmente, criando um passivo de proteção social.
  • Perda de direitos trabalhistas: FGTS, 13º salário, férias remuneradas e auxílio-doença acidentário (custeado pela empresa) simplesmente deixam de existir.

O Que Pode Decidir o STF

Três cenários são possíveis:

  • Cenário 1 — Constitucionalidade irrestrita: O STF valida a pejotização sem ressalvas. Nesse caso, a migração para PJ pode se intensificar, e a Previdência precisará de reformas para incluir esses trabalhadores como contribuintes obrigatórios.
  • Cenário 2 — Constitucionalidade com limites: A Corte define que a pejotização é válida apenas quando há efetiva autonomia do trabalhador, proibindo a prática em relações de subordinação disfarçada.
  • Cenário 3 — Inconstitucionalidade: O STF declara a prática ilegal quando há elementos de vínculo empregatício, obrigando a formalização como CLT.

Impacto prático: Em qualquer cenário, o trabalhador que hoje atua como PJ precisa de orientação para entender como suas contribuições ao INSS estão sendo feitas — e se está construindo um histórico previdenciário que garantirá seus benefícios no futuro.

Uberização: O Vínculo que o STF Vai Decidir

O Tema 1.291 trata do reconhecimento de vínculo empregatício entre trabalhadores e plataformas digitais. No TST, o entendimento é dividido: cinco turmas são contrárias ao vínculo e três favoráveis.

A decisão do STF terá impacto direto na Previdência:

  • Se reconhecer o vínculo: Motoristas e entregadores passarão a ser segurados empregados, com contribuição automática (INSS patronal + do trabalhador), FGTS, e acesso a todos os benefícios trabalhistas e previdenciários.
  • Se negar o vínculo: A responsabilidade pela contribuição continuará sendo do trabalhador individual. Muitos não contribuem ou contribuem abaixo do necessário, e a Previdência arca com o custo de benefícios como BPC/LOAS para aqueles que não conseguem mais trabalhar e não construíram o histórico contributivo.

Dados do TST (2025)

Em 2025, o TST recebeu 380 mil novos processos. Os temas mais frequentes são: horas extras, adicional de insalubridade e intervalo intrajornada. Mas o número de ações envolvendo pejotização e uberização cresce a cada mês, refletindo a transformação do mercado de trabalho.

Como o Trabalhador PJ Pode se Proteger?

Independentemente do que o STF decidir, o trabalhador que atua como PJ ou por plataforma precisa adotar medidas para não ficar desprotegido:

1. Contribua como Segurado Individual

O PJ pode (e deve) contribuir ao INSS na categoria de contribuinte individual. O valor mínimo é 11% sobre o salário mínimo (R$ 159,39 em 2026), mas o ideal é contribuir com 20% sobre o valor real dos rendimentos para garantir benefícios mais altos.

2. Emita Guias de Recolhimento (GPS)

O recolhimento deve ser feito mensalmente pelo aplicativo Meu INSS ou pelo site da Receita Federal (Carnê-Leão). O código de pagamento é 1406 (contribuinte individual).

3. Avalie se Há Vínculo Empregatício Disfarçado

Se você recebe ordens diretas, tem horário fixo, é supervisionado e não tem autonomia real, pode haver vínculo empregatício disfarçado. Um advogado pode avaliar se há direito ao reconhecimento do vínculo e aos benefícios retroativos.

4. Mantenha um Registro de Contribuições

Acompanhe seu CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais) pelo Meu INSS. Verifique se todas as contribuições estão registradas e corrija eventuais divergências antes de precisar de um benefício.

5. Considere a Previdência Complementar

Para quem tem renda como PJ acima do teto do INSS (R$ 8.092,54 em 2026), a previdência complementar aberta (PGBL/VGBL) ou fechada (planos instituídos via EFPC) é essencial para manter o padrão de vida na aposentadoria.

Benefícios Ameaçados: O Que o PJ Pode Perder

Quem atua como PJ precisa entender que não terá automaticamente os seguintes benefícios, a menos que contribua voluntariamente:

Benefício CLT PJ (sem contribuição) PJ (com contribuição)
Auxílio por Incapacidade Temporária Sim Não Sim, se tiver carência
Aposentadoria por Idade Sim Não Sim
Aposentadoria por Incapacidade Permanente Sim Não Sim, se tiver carência
Salário-Maternidade Sim Não Sim, se tiver carência
Pensão por Morte (dependentes) Sim Não Sim, se contribuiu
FGTS Sim Não Não (mesmo contribuindo)
Seguro-Desemprego Sim Não Não

A Reforma Necessária

O debate sobre pejotização e uberização escancara uma realidade incômoda: o sistema previdenciário brasileiro foi desenhado para o trabalhador CLT tradicional, e não acompanhou as transformações do mercado de trabalho.

Dados do TST mostram que o acervo da corte chegou a 486 mil casos em 2025, um crescimento de 15,7% em um ano. Grande parte desse volume está relacionado a novas formas de trabalho que o Direito do Trabalho e a Previdência ainda não conseguiram absorver adequadamente.

Enquanto o STF não decide os Temas 1.389 e 1.291, o Congresso também discute projetos de regulamentação do trabalho por aplicativo. A decisão — seja legislativa ou judicial — precisará equilibrar a liberdade do trabalhador, a viabilidade econômica das empresas e a sustentabilidade do sistema previdenciário.

O STF e o TST: Uma Tensão Crescente

O Anuário da Justiça Brasil 2026 documenta que as reclamações contra decisões da Justiça do Trabalho no STF passaram de 3,4 mil (2016) para 14,5 mil (2025). Hoje, 40% de todas as reclamações no STF são na área trabalhista. Isso mostra que o debate sobre pejotização e uberização não é apenas sobre o mérito — é também sobre qual tribunal terá a última palavra.

Dúvidas Comuns (FAQ)

Sim, mas você precisa contribuir voluntariamente como contribuinte individual. A contribuição mínima é de 11% sobre o salário mínimo (R$ 159,39/mês em 2026). Sem contribuição, você não tem direito a aposentadoria, auxílio-doença nem pensão por morte pelo INSS.

Empresas que contratam PJs em relações de subordinação poderão ser obrigadas a reconhecer o vínculo empregatício, com todos os direitos trabalhistas e previdenciários retroativos. Milhares de ações podem ser ajuizadas requerendo o reconhecimento do vínculo.

Sim, se contribuir como contribuinte individual. A decisão do STF no Tema 1.291 pode mudar isso: se reconhecer vínculo empregatício, a contribuição passará a ser automática (descontada pela plataforma). Se negar, o motorista continuará responsável por contribuir por conta própria.

No CLT, o empregador recolhe a parte patronal (20% sobre a folha) e desconta a parte do empregado. No PJ, você contribui sozinho como contribuinte individual. A alíquota pode ser de 11% (plano simplificado, limitado ao salário mínimo) ou 20% (plano completo, sobre qualquer valor até o teto do INSS).

Suas contribuições anteriores como CLT continuam valendo. Ao se tornar PJ, você deve começar a contribuir como contribuinte individual para não perder a qualidade de segurado. As contribuições se somam para efeito de carência e tempo de contribuição.

Acesse o Meu INSS e consulte seu CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais). Lá você encontra o histórico completo de contribuições. Se houver divergências, procure um advogado previdenciário para regularizar sua situação antes de precisar de um benefício.

Proteja Seus Direitos Previdenciários

Se você trabalha como PJ ou em plataforma digital e tem dúvidas sobre suas contribuições ao INSS, uma avaliação jurídica pode evitar surpresas no futuro. Descubra se você está protegido e o que pode fazer para garantir sua aposentadoria e seus benefícios.

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Dra. Angélica Rossi

Dra. Angélica Cristina Rossi

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